quarta-feira, 1 de abril de 2015

Momento lírico 353


CÃO SEM DONO
(Um grito de dor)
(Karl Fern)

Uma cadela abandonada
Farejando pelo meio-fio
Invadida do infalível cio
Atrai toda a cachorrada
Até que foi emprenhada
Por um cachorro vadio!

Retoma a batuta rotineira
Lutando pela vida ingrata
Todo mundo lhe maltrata
Sua barriga cresce ligeira
A fome vem mais arteira
Obrigando ir virando lata.

E assim segue desconfiada
O medo é sua companhia
Procura escapar noite e dia
Indo de calçada em calçada
Quem sabe a nova ninhada
Com sorte teria moradia.

Cadê seu antigo patrão
A casa em que antes vivia
Se soubesse onde era iria
Latir chamando no portão
Ter de novo aquele chão
Era tudo que ela queria.

Mas agora tava perdida
Arriscando ser atropelada
Caminhando desorientada
Ela só queria ser querida
Mas precisando de comida
Não poderia ficar parada.

Avista aquele saco roliço
Os olhos passam a brilhar
Aproxima-se pra procurar
Abrir será rápido serviço 
Talvez tenha osso maciço
Gostoso pra se mastigar.

Tendo seu faro aguçado
Sente que ali tem manjar
Que seu desejo vai saciar
Cada cãozinho embarrigado
Irá nascer bem fortificado
Ungindo gente lhe adotar.

Mas alguém embrutecido
Não entende tanta fome
E com uma ira sem nome
Atinge o corpo desvalido
Um latido de dor é ouvido
E insuportável a consome!

Tudo parece querer sumir
Sente um doído diferente
Nem quando teve doente
Filhotes iniciam um bulir
Mãe natureza tenta reagir
Este langor tão de repente.

Busca um canto de parede
Pra conseguir se segurar
Não consegue se apoiar
Vem uma esquisita sede
E no mosaico como rede
Ela consegue se deitar!

Filhotes chegam a nascer
Um a um ali espalhados
Sete mortos deformados
Ela procura os poder ver
Não consegue se mexer
Dói por todos seus lados.

O ganidos vão sumindo
O ar começa lhe faltando
O faro parece acabando
Tudo segue se esvaindo
Pouco a pouco sumindo
Seu tempo tá acabando!

Sua cabeça deita de lado
No corpo o leve tremido
Na boca o último gemido
O sangue tinto encarnado
Pinta num filete escoado
Anunciando ela ter partido.

Morreu sem ver o pecado
A razão de tanto padecer
Pois só queria um comer
Qual parecia abandonado
Por que tanto machucado?
Partiu sem nada entender!

Quem deveria lhe ajudar
Com um pouco de comida
Com sua raiva desmedida
Só pensou em machucar
E quem ela poderia amar
Acabou lhe tirando a vida.


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