sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Momento lírico 326

CAMINHOS DA SECA
(Karl Fern)

No Sertão de terras mortas
Onde há tempos não pinga
Em estradas longas e tortas
Prossigo cruzando a caatinga.

Entre curvas, retas e ladeiras
Saem veredas e rotas vicinais
Sem ventos que alcem poeiras
De vidas não se veem sinais.

A sede mata qualquer vivente
As águas evaporaram pelo ar
Se existe algum sobrevivente
É quase um milagre encontrar.

O astro-rei segue inclemente
Distribuindo seu calor infernal
A paisagem parece demente
Mostrando tristeza sepulcral.

Rios de areias escaldantes
A muito a correnteza secou
Em nacos de lamas rachantes
Só espinhas de peixe restou.

Se algum umbuzeiro floresceu
Seus umbus nunca crescerão
Se um juazeiro enverdeceu
Os frutos não amadurecerão.

Onde estão raposas e guarás
Sumiu o sorrateiro guaxinim
Nem sinal de mocós ou preás
Pois faltam as moitas de capim.

Se alguma nuvem voa no céu
Lembrando tempos de inverno
Logo some vagueando ao léu
Parece está fugindo do inferno!

A estrada estende-se sinuosa
Bem distante parece derretida
Numa quentura assombrosa
Oscila numa miragem tremida.

No Sertão de terras poeirentas
Pobres pela água que não corre
Em estradas longas e calorentas
Sigo vendo a caatinga que morre!


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