segunda-feira, 17 de março de 2014

Momento lírico 256

ORFEU & EURÍDICE
(Karl Fern)

Orfeu, mito grego flautista
O perfeito poeta mortal
Com dom divino e natural
O mais completo musicista
Tocava sua arte benquista
Um som suave e magistral
Jamais existira um igual
Com tão sublime melodia
Tornou a música fantasia
Enlevava deuses do Olimpo
Ao canto sonoro e limpo
Até deus Júpiter se rendia.

Por Eurídice viu-se rendido
Da Trácia perfeita donzela
Entre solteiras a mais bela
Era um amor correspondido
Um romance embevecido
Com as núpcias marcadas
Duas almas apaixonadas
O protótipo da felicidade
Um amor para eternidade
A música unida à beleza
Virtudes reais da natureza
Na lúdica vida sem maldade.

Mas o demoníaco Aristeu
Com seu desejo infernal
Brotou pra compor o mal
O pior pra ela aconteceu
Fugindo uma cobra a mordeu
Caiu mortalmente ferida
Pagou beleza com a vida
Pra desespero do amado
Que num gesto desesperado
O mundo dos mortos desafiou
Com suas canções encantou
O escuro mundo sepultado.

No seu resgate atendido
Com uma fatídica condição
Que durante a condução
Por todo retorno temido
O túnel das trevas vencido
Não poderia olhar pra ela
Pois nem a canção mais bela
Poderia reverter este ato
Perderia pra sempre de fato
A vida de infeliz amada
E não restaria mais nada
Não haveria mais contato.

Já próximo à luz do dia
Quase no ressuscitamento
Por brevíssimo momento
Quis ver se ela o seguia
E o preço de sua ousadia
Revelou-se imediatamente
Ainda avistou num repente
O perfil de Euridice se indo
Todo seu sacrifício findo
Apesar do seu desespero
Pagou caro o seu exagero
Tristeza foi-lhe consumindo.

E até o seu dia de finado
Cantou canções de saudade
Partiu para a eternidade
O corpo no Hebro jogado
Onde juravam ter escutado
Por um longo tempo ainda
A flauta e sua música linda
Sob uma voz clara e forte
Clamando como com sorte
“Eurídice, Euridice querida!”
E assim renasceu pra vida
Um amor maior que a morte!