segunda-feira, 1 de julho de 2013

Momento lírico 173

TERRA SECA DESMATADA
(Karl Fern)

No Seridó sigo em viagem
Na estrada quente e triste
A seca paisagem insiste
O calor promove miragem
O asfalto constrói imagem
Onde a água não existe.

O vento sopra aquecido
Não refresca o ambiente
Do ônibus vejo na frente
O mato tremer aquecido
E um passarinho perdido
Catando alguma semente.

Bode indo assombrado
Sombras de xique-xiques
Cercas de pau-a-piques
Limitando velho cercado
Lixo cerâmico espalhado
Aparente poluição chique.

De verde só palmatórias
Parcos pés de umbuzeiros
Não há mais marmeleiros
Jurema preta só histórias
Rotas paisagens ilusórias
Com carcomidos juazeiros.

Cruzeiros com oratórios
Sobre picos dos serrotes
Onde esparsos catingotes
Resistem nos territórios
De destinos expiatórios
Abrigando alguns garrotes.

Das oiticicas suntuosas
Restam uns poucos tocos
Uns moirões secos e ocos
Sem craubeiras frondosas
Nas vazantes sequiosas
 Só uns raros pés de cocos.

Foram-se as carnaubeiras
Mulungus e trapiazeiros
Quixabeiras e cardeiros
Maravilhosas faveleiras
Os baixios sem fruteiras
Tudo agora é tabuleiros.

Cortaram ipês e pereiros
Aramatalhas e umburana
Secaram pasto e gitirana
Foi-se angicos e aroeiras
Queimaram catingueiras
Tristeza faz-se soberana.

Nuvem sombreia a serra
Pinta uma tela sombria
Por instantes o sol alivia
Logo o refrigério encerra
A ressequida e nua terra
Retorna pra sua agonia.

Cabanas abandonadas
Patenteiam a sequidão
Na desoladora imensidão
Fauna e flora saqueadas
Dá dó ver tão maltratadas
As terras do meu Sertão!


Um comentário:

Anônimo disse...

Falar da paisagem qualquer um pode,mas falar de uma forma lindamente rimada, só por poetas.... E poetas da melhor qualidade!

Parabéns poeta!