quarta-feira, 15 de maio de 2013

Momento lírico 165


O TAMARINEIRO DA PRAÇA
Karl Fern

Foste um grão pioneiro
Germinativo e vigoroso
Filho de fruto poderoso
Plantado como escoteiro
Germinou tenro, alvissareiro
Cuidado pra ser majestoso.

Regado com água e carinho
Zelado com muito apego
Cercado de luz e sossego
Foi crescendo de mansinho
Bocadinho a bocadinho
Num jardim de aconchego.

Longos galhos enfolhados
Ao cantar dos passarinhos
Que alegres faziam ninhos
Dava sombra aos namorados
Que felizes e apaixonados
Dividiam doces segredinhos.

Resistiu ao calor horroroso
Firme e forte indestrutível
Sol inclemente e temível
Sempre verde e garboso
Vicejando verde imperioso
Mote de poema sensível.

Abençoado pela natureza
Imponente e determinado
Por passeantes admirado
Radiante na própria beleza
Com tua espontânea nobreza
Mui frondoso e enramado.
.
Divertia nossas meninadas
Adultos muito te queriam
Suas vagens eles comiam
Até nas bolandeiras catadas
Ciosamente descascadas
Que graciosos consumiam.

Na altivez dos vegetais
Seu verde legava alegria
Débil luz da aurora refletia
Gotas de orvalho matinais
Como acordes siderais
Um som da brisa se ouvia.

Da praça foste estandarte
Lustre enlaçado de vaidade
Símbolo de divina castidade
Panteão natural de arte
Nativo monumento à parte
Ponto cardeal da dignidade.

Mas um malvado sortilégio
Sob arbítrio da intolerância
Suprassumo da ignorância
Perpetrou infame sacrilégio
Alguém achou ter o privilégio
De exceder-se em petulância.

Agente de espírito perverso
Do bom-senso desprovido
Na lâmina do trator bandido
Em um gesto controverso
Fez exatamente o inverso
Daquilo por Deus pedido.

Resistiu à violenta sanha
Defendendo a própria vida
Contra a truculência atrevida
Apunhalado em sua entranha
Numa atrocidade tamanha
Finou-se numa luta perdida.

Sombra que não existe mais
Pelo infortúnio consumida
No chão sobejou a ferida
Das raízes e restos mortais
Tombou sob as fúrias brutais
Do aço da máquina homicida.

Quem conheceu e admirou
Gozou tua sombra um dia
Olha com dor e melancolia
O vazio que tua ida deixou
Ver-se que teu mundo findou
Só há terra onde vida existia.

Numa redoma de maldades
Sobraram cinzas num canteiro
Num fatídico e cruel roteiro
Reina um arco-íris de saudades
Angustiado pelas perversidades
Não te esqueço tamarineiro!


3 comentários:

Lucena Fernandes disse...

E não há punição para um ato tão covarde?

Anônimo disse...

Restaram apenas as lembranças!!! Ficou somente a saudade!

Anônimo disse...

Professor Carlão,
Lamentavel o acontecido, mas restou você para lembrar.
Estou ancioso pelo lançamento do Livro...