quarta-feira, 24 de abril de 2013

Momento lírico 162

O VELHO AÇUDE
(Karl Fern)

Meu Açude Velho querido
Saudoso do teu passado
Parece estranho, cansado
Lamentando o tempo ido
Em teu leito ressequido
Triste, sofrido, abandonado.

Tuas margens exuberantes
Com teus belos capinzais
Ode de herbívoros animais
Com tuas férteis vazantes
O orgulho das eras antes
Hoje não subsistem mais.

Brandos e verdes arrozais
Sadia e saborosa melancia
Farta batata doce e macia
Melões da terra especiais
Pegavam-se todos cereais
Que nossa fome carecia.

Feijão macassa se colhia
Macaxeira, milho em espiga
Fava pra encher a barriga
Semeando tinha todo dia
Sem pressa e sem agonia
Nunca vi terra mais amiga.

Era uma vida sem fadiga
Plantava-se até gergelim
Jerimum, cana e amendoim
As custas da água contida
Durante o inverno recolhida
Realces de divino folhetim.

Era tudo um imenso jardim
Manancial de saúde e beleza
Erguido como real fortaleza
Na fila de serrotes sem fim
Com mocós, tiús e guaxinim
Demais bichos da natureza.

Líquido de salubre riqueza
Repleto de peixes à vontade
Da mais variada qualidade
A curimatã tinha nobreza
As maiores da redondeza
Tudo em vasta quantidade.

Na mente vem a saudade
Dos banhos nas águas puras
E nas profundezas escuras
Mergulhava com habilidade
Referto daquela ingenuidade
A mais feliz das criaturas.

Hoje não há mais farturas
Penso num passado perdido
Parece-me de morte ferido
Não há alvissaras futuras
Fluem lágrimas de amarguras
Por ti Açude Velho querido!
  


Um comentário:

Lucena Fernandes disse...

É uma pena, um manancial tão fértil, agonizar assim! Mas Deus há de mandar chuvas para que ele volte a ter pujança e fartura.