terça-feira, 12 de março de 2013

Momento lírico 148

EU VI...
(Karl Fern)

Vi o matagal seco e retorcido
Estático naquela sequidão
Poeira levantando do  chão
De um tabuleiro ressequido
Deixando um suor dolorido
No rosto de qualquer cristão.

Vi nos caminhos pelo sertão
Dor de infindável sofrimento
O choro do eterno tormento
Impacto de continua emoção
Doendo no fundo do coração
Sinfonia de terrível lamento.

Vi o sol brilhante e cruento
Sobre a terra feia e desnuda
Onde só a miséria é graúda
A tristeza o único sentimento
Caindo nesse mundo sedento
Só a água da lágrima sisuda.

Vi a estaca de angico pontuda
Segurando a cerca comprida
Rodeando um mundo sem vida
Com arame de roseta aguda
Cercando a propriedade muda
Parca riqueza pobre e sofrida.

Vi criação caindo desnutrida
Esperando a morte em agonia
Entregue a sorte da profecia
De mortais fome e sede ferida
Pelo trágico destino vencida
Como abandonada mercadoria.

Vi que com sarcástica ironia
Políticos e outros exploradores
Para a seca tecendo louvores
Com cinismo rindo em ironia
Iniquidade em mente doentia
Sem comiseração ou pudores.

Vi a maldade dos senhores
Se locupletando com o clima
Quando chegam lá em cima
Esquecem o dito aos eleitores
Vis e elegantes malfeitores
Que até a Jesus desanima.

Vi magoado na autoestima
Trôpego obstinado nordestino
Vitimado de cultural desatino
Olha pra o firmamento e lastima
Como num teatro de pantomima
Entrega pra Deus seu destino!


2 comentários:

Lucena Fernandes disse...

Que tristeza é a seca. E os homens no poder, nada fazem para evitar tanto sofrimento!

Anônimo disse...

Eu me senti na cena através das suas palavras rimadas, é tritste e ao mesmo tempo nos deixa indignados com tamanho descaso das autoridades "ditas" competentes!