terça-feira, 5 de março de 2013

Momento lírico 146

UM CAUSO RIMADO
(Karl Fern)

Meu cumpádi, meu bichim
Vim aqui pra ti contá
Um causo desse de lascá
Mais eu conto mermo assim
Dizeno tim-tim pru tim-tim
Sem os nome certo falá
Pode arquém se zangá
Num gostá da ingrisia
E com toda sua famia
Vim querê me processá
E pra num me complicá
Num vô nem dizer o dia!

O causo é que Chico casô
Com Maria aqui em Jardim
E como tinha um sitiozim
Pra morá lá se programô
Com Mestre Ciço  viajô.
Maria parecia preparada
Pra infrentá a empeleitada
Com o gosto da mãe e pai
Pois se houvesse arguns ai
Ela num era de recuada
E que tava bem casada
Um rapais bom pra carai!

Mais num foi bem assim
Que a coisa aconteceu
Pois quando escureceu
Ela foi pra cama de capim
E lá vinha o noivo doidim
Com a lamparina na mão
Quando ela viu o formão
Qui o marido trazia armado
Ela disse “sai pra lá danado!
Deus me live, isso tudo não!
Depressa levantô do coxão
Pra corrê pra quarquer lado

E pela porta da cuzinha
Fugiu qui nem bala pegava
Ouvia que Chico gritava
“Vem cá minha danadinha
Dêxe de ser tão bestinha!”
E atravessou o catingote
Bebeu toda água do pote
Quando na sua casa chegô
E a mãe lhe preguntô
O que tinha acontecido
Ela disse “Meu marido
É um cavalo, Nosso Sinhô!

“Pode acabá o casamento
Num vorto prá lá mais não
Prefiro caí morta no chão
Qui ter esse passamento
É o diabo, é um jumento
Vai meter no rabo do cão
Parece o cabo do enxadão
Não mãe, pelo seu amô
Eu fiz coma sinhora insinô
Se eu ficasse era isfolada
Na certa era morte matada
De jeito nenhum eu lá vô”

Num teve mais argumento
Num adiantô insistença
Tava definida a sentença
Desmanchar o casamento
Pru mais qui fosse bento
Era tudo que ela queria
Acabar com aquela agonia
“Qui ele procure outa muié
Pois com mim se Deus quiser
Ele num vai fazer famia!
Deus me live! Ave Maria!
O tinhoso é quem lhe qué”

E como úrtima tentativa
Truçero a teimosa sertaneja
Pra u’a conversa na igreja
Se o pade lhe aconselhasse
Quem sabe lhe incinasse
Pra mudar de opinião
E ajeitasse aquela união
Que Deus tinha abençoado
Pro causa de um acavalado
Tava quase tudo perdido
A curpa nem era do parido
Ter um troço tão avantajado.

Conversa vai, conversa vem
E a moça num se dobrava
Conseio num adiantava
Falar de Deus, não também
A cristã tava como ninguém
Assombrada com o que viu
Que fosse pra puta que pariu
Era desmanchar o casamento
Num havia outo argumento
Era tudo que ela pedia
E o pade na sua sacristia
Pediu contasse o momento.

“Pade, fiz como mãe mandô
Me aboletei naquela cama
Prostada como uma dama
Esperano ele sim sinhô
Pru sacrifiço do tá amô
Estendida naquele escuro
Quando eu vi aquilo duro
Nossa Sinhora, me endoideci
Eu? Tá doido? Só pensei fugi!
Nem lembrei da escuridão
Escapei maluca pelo matão
O meu negóço era escapuli.

Assombrada com a situação
Nem mermo olhei pra trás
Com medo do satanás
Me agarrá de sopetão!
Quem sabe me jogá no chão!
Seu vigaro tenha piedade
Faça essa minha vontade
Desmanche esse casamento
Pois nem em pensamento
Eu vorto pra’quele lugá
Nunca mais eu vou casá
Ti faço esse juramento!

Eu nunca qui pensei sê
Tão grande a estrovenga
Aquilo é cacete pra arenga
Botá até vaca pra corrê
Nunca mais eu quero vê
E pregunto a sua senhoria
Me ói e diga com valia
Responda com toda atenção
De dento do seu coração
Veno aquilo o senhor ia?
O pade falou “Vige Maria!”
“Vôte diabo! Eu mermo não!”

Um comentário:

Anônimo disse...

VÔTE!!! Nem ela nem eu, tô fora!


rsrsrsrs