quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Momento lírico 120

SAUDOSO RANCHINHO
(Karl Fern)

Revendo minha antiga zona rural
O São Roque onde eu me criei
Muita coisa não mais encontrei
Paisagem de toque sentimental
Não há mais quase nada original
Morreu ou sofreu transformação
Pouca coisa serve de recordação
Meu mundo antigo foi destruído
Daquele meu ranchinho querido
Não existe nem marcas no chão

Hoje é apenas um descampado
Inexiste qualquer sinal no lugar
Mesmo assim volta a imaginar
Daquele meu mundo encantado
Ali fui feliz e muito bem criado
Refaço minhas imagens de então
A vida de uma criança do sertão
Que viveu nesse recanto perdido
Daquele meu ranchinho querido
Não existe nem marcas no chão

Era sim nossa singela choupana
Mas pra mim era como palacete
Seu piso era como um fino tapete
Parecia ser a morada mais bacana
No mínimo a mais linda cabana
Que poderia existir nesse mundão
Semeei um sentimento de ligação
Agora vejo que, mui entristecido,
Daquele meu ranchinho querido
Não existe nem marcas no chão

Eram três lindos compartimentos
Somando duas salas uma cozinha
Nas paredes nenhuma janela tinha
As paredes de taipa sem cimentos
Onde todos os seus tapamentos
Eram feitos com adobe de torrão
Teto de folhas de coqueiro-anão
Amarradas com arame retorcido
Daquele meu ranchinho querido
Não existe nem marcas no chão

A primeira sala a porta de entrada
Onde as dormidas eram armadas
Pra algumas visitas e a criançada
Apoiadas nas estacas das paredes
Com cordas dos punhos das redes.
Dormiam os pais no próximo vão
Tinha baús rústicos e um colchão
Uma rede miúda de recém nascido
Daquele meu ranchinho querido
Não existe nem marcas no chão.
A cozinha com seu fogão a lenha
Onde na mesa se punha a comida
Em torno dela a família reunida
Parecia cada um ter a sua senha
Jamais houve motivo pra resenha
Esperavam seu prato na sua mão
A mãe sabia arrumar com exatidão
Cada um no seu canto escolhido
Daquele meu ranchinho querido
Não existe nem marcas no chão.

Na cozinha tinha a porta de saída
Por onde galinha teimava entrar
Onde o cachorro ficava a esperar
Que também atirassem comida
As vezes uma cascavel atrevida
Ou uma jararaca atraiam atenção
Mas naquele abençoado rincão
Jamais alguém foi por elas ferido
Daquele meu ranchinho querido
Não existe nem marcas no chão.

Em frente uma cerca bem antiga
Via-se um passadiço pequeno
Por onde se chegava ao terreno
Que aceirava o principal roçado
Era a proteção contra o gado.
Dali deliciava-me com audição
Do açude velho em extravasão
Depois de intensamente chovido
Daquele meu ranchinho querido
Não existe nem marcas no chão.

E naquele piso de barro batido
Um cantinho da sala rebaixado
Era meu sítio de brincar sentado
Um carrinho de lata de sardinha
Deslizando na curta estradinha
Uma engenharia de imaginação
Ali já despertava minha aptidão
Intrínseca em meu sexto sentido
Daquele meu ranchinho querido
Não existe nem marcas no chão.

É assim mesmo a vida material
Tudo passa nada é permanente
Muito daquilo que marca a gente
Inesquecível e de muito especial
Também um dia tem o seu final
Só a memória enche de emoção
Guarda raízes em nosso coração
É frustrante vê-lo desaparecido
Daquele meu ranchinho querido
Não existe nem marcas no chão.


2 comentários:

Anônimo disse...

Emocionante!!! Fiz a imagem na minha cabeça como se estivesse lá!

Parabéns poeta!

Lucena Fernandes disse...

Dá vontade da gente conhecer de perto. Pena que não exista mais!