segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Biografias de brasileiras - 12

Maria Augusta Generosa Estrella  (1860 - 1946)
Médica brasileira nascida no Rio de Janeiro, primeira mulher do país a receber um diploma de medicina, em New York (1881) e cujo exemplo contribuiu para a abertura das faculdades às jovens do nosso país.
Filha de portugueses Maria Luiza e Albino Augusto Generoso Estrella, teve educação elementar esmerada no internato do Colégio Brasileiro e com apenas 13 anos de idade, interrompeu o aprendizado e viajou à Europa e durante seis meses permaneceu no colégio Villa Real, no Funchal, Portugal onde demonstrou ter inteligência superior. No mesmo ano retornou ao Brasil, numa acidentada viagem a bordo do vapor Flamsteed. Internada novamente no Colégio Brasileiro (1874), distraía-se lendo revistas e jornais, principalmente os dos Estados Unidos, onde lhe chamou a atenção, em um desses periódicos, a foto e a biografia de uma jovem que estudava medicina em New York. Mostrou a reportagem ao pai e demonstrou seu desejo de se formar em medicina. Como no Brasil as faculdades não permitiam o ingresso de mulheres, ela insistiu para que seu pai lhe permitisse formar-se no exterior e clinicar no Brasil. Assim, conseguiu partir do porto do Rio de Janeiro (1875), no navio South America, rumo a New York.
Nos Estados Unidos, requereu prestar exames no New York Medical College and Hospital for Women, situada na Lexington Avenue. Porém, o requerimento foi indeferido porque os estatutos exigiam idade mínima de dezoito anos para o ingresso na Faculdade, e ela tinha apenas dezesseis. Não desanimando, fez nova petição para expor oralmente seus motivos para se matricular e perante médicos, médicas e alunas da instituição, questionou sua não admissão e, assim os membros da Congregação marcaram os exames para o mês seguinte. Brilhante, inteligente e preparada com as matérias, não deixou dúvida aos examinadores e foi aprovada com distinção. Na semana seguinte, em 17 de outubro (1876), matriculou-se no citado Medical College. Neste interin, infelizmente, a Companhia Bristol, representada por seu pai no Brasil, quebrou e ele não tinha mais condições de mantê-la em Nova Iorque. Porém ao tomar conhecimento da situação, o Imperador D. Pedro II, ordenou, por decreto, a constituição de uma bolsa (1877) suficiente para pagar a faculdade e cobrir gastos gerais. Somente no final daquela década (1879) o Governo Brasileiro abriu as instituições de ensino superior do país às mulheres, com a Reforma Leôncio de Carvalho, pelo Decreto nº 7247, de 19 de abril, embora as jovens que seguiam esse caminho ficassem sujeitas a pressões e à desaprovação social. Nestas condições ela pode concluir o curso (1879), mas não tinha a idade exigida pelos estatutos da Faculdade para receber o diploma, ela teve que aguardar dois anos, para completar a maioridade e receber o grau de doutora em Medicina.
Em agosto do ano seguinte um duro golpe do destino a atingiu: a morte de seu pai, o amigo, incentivador e admirador de todas as horas. Durante a espera do diploma, ela não permaneceu inativa em New York e frequentou cursos, estagiou em vários serviços médicos. A ela juntou-se uma segunda jovem e colega de Faculdade, Josefa Agueda Felisbella Mercedes de Oliveira. As duas fundaram um jornal em New York: A mulher – destinado à defesa dos interesses e direitos da mulher brasileira (1881). Recebeu o diploma de doutora em Medicina no New York Medical College and Hospital for Women, na Association Hall of New York (1881), localizado na Lexington Avenue, sendo ela oradora da turma e agraciada com uma medalha de ouro, pelo melhor desempenho durante o curso e por sua magnífica tese: Moléstias da Pele. Permaneceu mais um ano nos Estados Unidos, autorizada pelo Imperador.
Desembarcou no Rio de Janeiro e, em meio a muitas homenagens, foi recebida em audiência especial pelo Imperador do Brasil que a aconselhou a se dedicar ao atendimento de senhoras, e obteve seu comprometimento. Com o diploma validado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e passou a clinicar e servir de exemplo para outras jovens a se matricularem em cursos superiores. Dois anos depois de seu regresso (1884), conheceu o alagoano de 38 anos, Antonio Costa Moraes, laureado em Farmácia pela Universidade de Leipzig, casaram-se (1886) e tiveram cinco filhos: Samuel, Matilde, Bárbara, Luciano e Antônio. O esposo montou a Farmácia Normal e numa das salas da própria farmácia ela mantinha um pequeno consultório, onde também formulava receitas, atendendo uma imensa clientela, especialmente mulheres e crianças. Enviuvou (1908), o que a obrigou a reduzir o atendimento médico para se dedicar mais aos filhos, porém nunca abandonou completamente os estudos e o contato com clientes e estudiosos. Aos 86 anos e ainda lúcida, morreu repentinamente, em sua casa, no Rio de Janeiro, deixando acima de tudo um lugar na história pela luta na defesa de ideais femininos. Seis anos depois de sua formatura superior, Rita Lobato Velho Lopes tornou-se a primeira mulher brasileira a receber o grau de médica, no Brasil (1887). Estas pioneiras encontraram muitas dificuldades para se afirmar profissionalmente e várias delas estiveram sujeitas ao ridículo. Mas foi, principalmente, devido a seu exemplo e esforços que as mulheres do Brasil passaram a ter acesso às Faculdades de Medicina, pela Reforma Leôncio de Carvalho (1879).


Um comentário:

Voz do Povo disse...

Brilhante biografia e que mulher de fibra, bom saber um pouco da nossa história, quanta discriminação?