terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A Biblioteca de Alexandria

Chamada de A grande Biblioteca para distingui-la da pequena biblioteca de Serapis, foi inaugurada por Ptolomeu Sóter II (309-247 a. C.), o Filadelfo, segundo rei (282-247 a. C.) dessa dinastia, com o propósito de firmar a manutenção da civilização grega no interior da conservadora civilização egípcia. Provavelmente idealizada a partir da chegada de Demétrio Falero (350-283 a. C.), levado a Alexandria (295 a. C.) para este fim e atendendo a um projeto elaborado por Ptolomeu Sóter I (367-283 a. C.) cuja obra ficou completa com a construção de sua conexão com o Museu, a obra máxima de seu sucessor, Ptolomeu Filadelfo. Como Estrabão (63 a. C.-24) não fez menção da biblioteca em sua descrição dos edifícios do porto, possivelmente se encontrava em outra parte da cidade, além do mais, sua conexão com o Museu, parece localizá-la no Brucheião, a noroeste da cidade.
A formação do acervo foi constituída de várias formas, segundo muitos relatos tradicionais para aquisição dos livros, geralmente na forma de rolos. Por exemplo, os barcos que entravam no porto eram forçados a entregar algum manuscrito que transportavam. A rivalidade entre Alexandria e Pérgamo chegou em tal nível que a exportação de papiro foi proibida com o fim de prejudicar a cidade italiana. Esta rivalidade levou ao desenvolvimento de envelhecimento artificial de papiros para falsificação de cópias como originais, para aumento do acervo. Demétrio Falero (350-283 a. C.) mencionou o número de 200.000 rolos de papiro, para uma meta de 500.000. Calímaco (294-224 a. C.) criador do primeiro catálogo sistematizado da biblioteca, os Pinakes, contabilizou em 490.000 rolos e, mais tarde, Aulo Gélio (120-175) e Amiano Marcelio (330-395) em 700.000 rolos. Paolo Orósio (370-417), por outro lado, mencionou 400.000. João Tzetzes (1110-1181), comentarista bizantino, concluiu que o acervo estaria dividido, com 42.800 manuscritos em Serapis e 490.000 no Museu. Autores modernos falam em milhões de originais.
Depois da catalogação das obras por Calímaco e Apolônio de Rodes, o primeiro bibliotecário de fato (234 a.C.) foi Zenódoto (325-234 a. C.), seguido (234-194 a. C.) por Eratóstenes (276-194 a. C.), (194-180 a. C.) Aristófanes de Bizâncio (257-180 a. C.) e (180-131 a.C.) Aristarco de Samotrácia (217-131a. C.), todos nomes de famosos estudiosos daquele período da civilização. A inclusão nesta lista do gramático Calímaco (294-224 a. C.) e do gramático e poeta épico Apolônio de Rodes (295-215 a. C.) é pouco convincente e parece cronologicamente impossível, a não ser como colaboradores iniciais na fundação da instituição e organização do acervo inicial. O trabalho dos bibliotecários consistiu na classificacão, catalogação e edição das obras da literatura grega e exerceram uma profunda e permanente influência não só pela forma dos livros, de suas subdivisões e sua disposição, como também pela transmissão de textos em todas as fases da história da literatura.
Depois de Aristarco a importância da biblioteca decaiu. Júlio César (100-44 a. C.) viu-se impelido (47 a. C.) a queimar sua frota para impedir que caísse em mãos dos Egípcios. O fogo se estendeu aos documentos e o arsenal naval e acredita-se destruiu cerca de 400.000 rolos de papiros. É mais provável, segundo o relato de Orósio, que isto não ocorreu na próprio biblioteca, e sim, depois que os rolos tivessem sido transportados de lá para porto para serem embarcados para Roma. Sêneca (4 a. C.-65) e Aulo Gélio (120-175) também escreveram sobre essa ocorrência, porém só da queima dos manuscritos, este último apresentando-a como completa. Menos cuidadosamente os historiadores Plutarco (46-119) e Dio Cássio escreveram sobre a queima da biblioteca, porém o assunto não foi tratado pelos historiadores Cícero (106-43 a. C.) nem por Estrabão (63 a. C.-24). O prejuízo foi parcialmente reparado (41 a. C.) por Marco Antônio (83-30 a. C.) e Cleópatra VII (69-30 a. C.), com o aporte de 200.000 volumes provenientes da biblioteca de Pérgamo. Sob o imperador romano Aureliano (215-275), uma grande parte do Brucheion foi destruída (272) e é possível que a biblioteca tenha desaparecido nessa época. A mais generalizada versão da destruição da biblioteca é a que aconteceu quando Alexandria foi capturada pelos muçulmanos (642), que sob o argumento de que os escritos gregos não eram necessários e não necessitavam ser preservados, porque estavam em desacordo com os ensinamentos de Alá e, portanto, eram perniciosos e deveriam ser destruídos. A versão de que teriam sido usados como lenha, hoje está descartada, pois o gesto não seria coerente com os costumes muçulmanos e, além disso, segundo alguns historiadores essa versão ganhou corpo cerca de um século depois da captura da cidade, aumentando as possibilidades de que a monumental biblioteca tenha sido destruída muito antes da invasão muçulmana.
Conta-se, no entanto, que a biblioteca foi destruída pelo fogo em três ocasiões, sendo a primeira (272) por ordem do imperador romano Aureliano (215-275), depois (391), quando o imperador Teodósio I (347-395) arrasou-a, juntamente com outros edifícios pagãos, e finalmente (640) pelos muçulmanos, sob a chefia do califa Omar I (581-644). Saliente-se ainda que existe uma suposição de que a pequena biblioteca de Serapis, com pouco mais de 40 mil volumes, foi destruída quando o Templo de Serapis foi demolido (391) por ordem do cristão radical Teófilo (335-412), nomeado (385) patriarca de Alexandria, durante sua violenta campanha de destruição de todos os templos e santuários não-cristãos daquela cidade, com o apoio do imperador Flávio Teodósio (347-395), após a proclamação (380) do Cristianismo como Religião do Estado. Essa loucura destruidora já teria sido responsável, então, pela demolição dos templos de Mitríade e de Dionísio, porém não há uma informação definitiva dos acontecimentos em relação à biblioteca.
Saliente-se ainda que Hipatia (370-415), a última grande matemática da Escola de Alexandria, a bela filha de Téon de Alexandria (335-395), foi assassinada por uma multidão de monges cristãos, incitada por Cirilo (376-444), sobrinho e sucessor de Teófilo como patriarca de Alexandria, que depois seria canonizado pela Igreja Católica. Após o seu assassinato, numerosos pesquisadores e filósofos trocaram Alexandria pela Índia e pela Pérsia, e a cidade deixou de ser o grande centro de ensino das ciências do Mundo Antigo.



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