domingo, 28 de outubro de 2012

Momento lírico 89

NOITE DE LUAR
(Karl Fern)

Um dos costumes sertanejos
Da minha antiga zona rural
De um significado especial
Energia elétrica não havia
Trabalhava-se todo o dia
E dormia-se depois da ceia
Numa rotina em cadeia
No mais perfeito civismo
Nada tinha mais lirismo
Que uma noite de lua cheia

Do horizonte do nascente
Subia suspensa no infinito
Sem nuvens ficava mais bonito
Astro de luz e de suavidade
Seus raios davam a claridade
Como o canto de uma sereia
Que no marinheiro semeia
O desejo de flutuar no abismo
Nada tinha mais lirismo
Que uma noite de lua cheia

O mundo todo iluminado
Tomava de alegria a alma
Trazia uma fleuma de calma
Sentia-se o matuto encantado
Por Deus um abençoado
Sorridente e feliz da vida
Crendo na sorte prometida
Envolvido de diletantismo
Nada tinha mais lirismo
Que uma noite de lua cheia

De quatro em quatro semanas
Ocorriam aqueles momentos
De todos os acontecimentos
Era um dos mais bacanas
Fossem em casas ou cabanas
Isoladas ou em aldeia
Rodeadas de pedra ou areia
Livre de qualquer pessimismo
Nada tinha mais lirismo
Que uma noite de lua cheia

Depois que a turma jantava
Apagava-se até o candeeiro
Iam todos logo pro terreiro
Cada um num canto sentava
O vizinho vinha e proseava
Falava-se da vida alheia
Era o que desse na veia
Não existia proselitismo
Nada tinha mais lirismo
Que uma noite de lua cheia

Sem medo de sujeira ou noda
Toda a meninada brincava
Corria, gritava e arengava
Ou até cantava uma moda
Enquanto adultos faziam roda
Feito abelha na colmeia
Um deitado numa “rede veia”
Pra aliviar o reumatismo
Nada tinha mais lirismo
Que uma noite de lua cheia

Ali se conversava de tudo
De piadas a histórias danadas
De vivos ou de almas penadas
De deixar qualquer um mudo
De arrepiar o couro cabeludo
A mentira rolava solta e meia
Quem duvidasse ia pra “peia”
Longe de qualquer ceticismo
Nada tinha mais lirismo
Que uma noite de lua cheia

Namorados ficavam num banco
A moça sempre se comportava
O canto do olho da mãe vigiada
“Armada” com pesado tamanco
Um sorriso em nada franco
Aquele que todo noivo receia
Em tramar pra chegar na teia
Idealizar algum mecanismo
Nada tinha mais lirismo
Que uma noite de lua cheia

Até que o sono chegasse
Pois amanhã seria outro dia
Todo mundo se divertia
Não havia quem se entediasse
Se o assunto fosse ou voltasse
Se a aranha fizesse sua teia
No olho caísse um cisco de areia
Livre de qualquer egoísmo
Nada tinha mais lirismo
Que uma noite de lua cheia.

Que saudade e que tristeza
Foi-se o tempo de tanta paz
Que hoje não temos mais
Não se aprecia a natureza
Nem se valoriza sua riqueza
Nesse mundo que nos rodeia
Essa ganância profunda semeia
Enche-nos de negativismo
Nada tinha mais lirismo
Que uma noite de lua cheia.


Um comentário:

Anônimo disse...

Mais uma obra perfeita, digna dos maiores elogíos!
Saudoso e belo como a natureza e o sertão!

Parabéns!