terça-feira, 16 de outubro de 2012

Momento lírico 83

NO SERTÃO DO SERIDÓ - Parte I
(Karl Fern)

Pode não parecer muito chique
Chiqueiro de vara de marmeleiro
Com estacas fortes de pereiro
Cerca de pedras ou de xique-xique
De avelós ou de pau-a-pique
Casas de taipa de lama fina
Iluminadas com lamparina
Onde se esconde o vil procotó
No bendito sertão do Seridó
Não há coisa mais genuína.

Cercas com firme passadiço
De forquilhas de boa madeira
Pra se poupar uma porteira
E o caminho ficar inteiriço
E não atrapalhar o serviço
De gente que não é mofina
Pra quem andar a pé é rotina
Uns até gostam de andar só
No bendito sertão do Seridó
Não há coisa mais genuína.

Quando uma lagartixa brinca
Correndo solta pelo terreiro
Um gato agachado e sorrateiro
Com seu olhar fixo espreita
Se um gozo não lhe faz desfeita
Com sua artimanha assassina
A presa tem uma triste sina
Dela o tal felino não tem dó
No bendito sertão do Seridó
Não há coisa mais genuína.

A água carregada em galão
Tirada da cacimba lá de baixo
Na areia do rio ou do riacho
As vezes de longínquo ribeirão
De um açude ou cacimbão
Onde a lama nada cristalina
Ajuda a traíra pequenina
A escapar do faminto socó
No bendito sertão do Seridó
Não há coisa mais genuína.

Curioso é o singelo sanitário
Lá no fundo do terreiro
Paredes de palha de coqueiro
E porta de tábuas pregadas
Sem dobradiças, só encostadas
Ou um pano velho de cortina
Exclusivo de mulher ou menina
Machos vão pra outro cafundó
No bendito sertão do Seridó
Não há coisa mais genuína.

E quando a chuva cai copiosa
Enchendo toda gente de emoção
O sonoro ronco do trovão
Soa como uma cantiga maviosa
Como uma dádiva poderosa
Enviada por uma força divina
Revigora a várzea e a colina
Põe a cantar asa branca e curió
No bendito sertão do Seridó
Não há coisa mais genuína.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito lindo e real essa visão do sertanejo, ainda mais em poesias, tão bem expressado aqui!

Parabéns! Estou levando pra outras comunidades!

ABRAÇOS!