quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Momento lírico 73

(Escombros da última casa) 

MEU VELHO SÃO ROQUE QUERIDO /
VOCÊ ESTÁ MUDADO DEMAIS!
(Karl Fern)

Pra reviver meus anos infantes
Decidi por visitar novamente
Pra reencontrar tão somente
Paisagens que me foram marcantes
Revendo locais importantes
Num passado feliz e bom demais
Onde vivi tempos especiais
O que vi não achei divertido
Meu velho São Roque querido
Você está mudado demais!

Do casarão vistoso e pioneiro
Nem rastro se pode encontrar
Não tive nem como localizar
Deram fim ao seu juazeiro
Sumiram com seu tamarineiro
Do terreiro não há marcas reais
E aqueles alpendres e umbrais
Tudo está desaparecido
Meu velho São Roque querido
Você está mudado demais!

Não vi o pequeno barreiro
Nem o pé de manga maranhão
Das pinheiras sobrou nada não
Não há mais cacimba no riacho.
O trapiazeiro cansado sem cacho.
E aqueles vastos carnaubais
Ao lado dos belos coqueirais
Tudo isso foi consumido
Meu velho São Roque querido
Você está mudado demais!

E daquelas frondosas fruteiras
Nem se nota onde elas ficavam
Ervas daninhas se mostravam
Cobrindo aquelas barreiras
Onde floresciam goiabeiras
Delas não se vêm nem sinais
Daquelas árvores colossais
Apenas um cajueiro carcomido
Meu velho São Roque querido
Você está mudado demais!

E da famosa manga de gado
Onde água nunca faltava
Mesmo na seca se encontrava
O líquido pra o gado beber
Que com sede descia a correr.
E surgindo dos amplos matagais
Vinham inúmeros animais
Ali nada parece ter existido
Meu velho São Roque querido
Você está mudado demais!

Do meu saudoso ranchinho
Feito de paredes de taipa
Coberto como uma lapa
Como a que nasceu Jesus
Juro pensei botar uma cruz
Marcando onde eram os currais
Só que já não há mais juremais
Pra se cortar um pau comprido
Meu velho São Roque querido
Você está mudado demais!

A vazante do açude antigo
De fartura de melões e melancias
Hoje só vemos terras vazias
Como a pagar enorme castigo
Sem lugar para um abrigo
Para alguns poucos animais
Que pastam restos de capinzais
Quanto terreno fértil perdido
Meu velho São Roque querido
Você está mudado demais!

Que dizer dos seus roçados
A capoeira tomou conta
Até parece uma afronta
Tantos chãos abandonados
Ao descaso relegados
As maltratadas mangueiras
Barrancas com bananeiras
Tudo isso foi esquecido
Meu velho São Roque querido
Você está mudado demais!

E a deliciosa cachoeira
Já perto do açude novo
Onde quando chovia o povo
Ia pegar peixe e tomar banho
E num descuido sem tamanho
Tudo que foi dos meus pais
Hoje não se encontra mais!
Só saudades do desaparecido
Meu velho São Roque querido
Você está mudado demais!

Da última casa que moramos
Algumas paredes restam
Os seus escombros atestam
A tristeza que deparamos
E quando entrar neles tentamos
Logo corremos pra trás
Pois maribondos infernais
Tornaram o passeio interrompido
Meu velho São Roque querido
Você está mudado demais!

Por fim o que ainda resta
São alguns velhos amigos
Profundamente agradecidos
Por nossa voluntária visita
E na paisagem, ainda bonita,
A Serra da Raposa é um cais
Imutável nas paisagens atuais
Ao menos um horizonte mantido
Meu velho São Roque querido
Você está mudado demais!


(Serra da Raposa)


3 comentários:

Anônimo disse...

Triste....Mas muito belo poema, por mais simples que tenha sido a nossa infancia, sempre nos traz saudade!


Adorei!

Anônimo disse...

Eu senti falta da classificação do ML-73, eu não havia entendido, também eu não devo entender tudo, felizmente voltou ao normal!

VALEU!

Anônimo disse...

Professor Carlos Fernandes,

Você fez um retrato falado do que foi nosso "campo" e como está hoje completamente abandonado. O mais triste é saber que o sítio em que você residiu insere-se nessa mesma situação contrastando com seu belo decassílabo que descreve o "passado e o presnte daquela região.

Parabéns!
Abração
Aécio