terça-feira, 25 de setembro de 2012

Momento lírico 72


ERA TUDO MESMO ASSIM / NO SERTÃO DO SERIDÓ
(Karl Fern)

Nos meus tempos de criança
Tudo era bem diferente
O dia a dia da gente
Hoje me vem na lembrança
Havia muito mais confiança
Se podia até viver só
Não havia tanto quiprocó
Tinha menos gente ruim
Era tudo mesmo assim,
No sertão do Seridó.

Tinha cerca de pedra inteira
De pinhão e de xique-xique
Os currais de pau-a-pique
E de vara de marmeleiro
Que era boa pra chiqueiro
Com estaca de pereiro sem nó
Amarrada com forte cipó
Mourão de angico sem cupim
Era tudo mesmo assim
No sertão do Seridó.

Tinha passadiço com certeza
Pra sobre a cerca se passar
Ou porteira pra não fechar
Por preguiça ou safadeza
E depois mangar da brabeza
Do dono daquele cafundó
Que não valia nem um bozó
Mas dono de terras sem fim
Era tudo mesmo assim
No sertão do Seridó.

A água de cacimba cavada
Na areia do rio ou do riacho
Que ficava num ponto baixo
Num galão era carregada
Subindo uma ladeira danada
Em casa valia ouro em pó
No pote ou vasilha maior
Pra ir gastando de “pouquim”
Era tudo mesmo assim
No sertão do Seridó.

As vezes tinha água barrada
Com a lama dando na canela
E se tivesse alguma suvela
Que pudesse ser pescada
Logo mais seria assada
Numa trempe sem nenhuma dó
Junta com um preá ou mocó
Num fogo atiçado com capim
Era tudo mesmo assim
No sertão do Seridó.

Como em todo terreirinho
Se via galinhas ciscando
Aqui acolá uma cacarejando
Sinal de um ovo fresquinho
Pra fritar com graxa de toucinho
E se passar bem melhor
Ter mais força no mocotó
E não perdê-lo pro guaxinim
Era tudo mesmo assim
No sertão do Seridó.

Na hora da necessidade
Era tudo mais complicado
Se tivesse num descampado
E não existisse uma moita
Pedia uma atitude mais afoita
Mas que escondesse o fiofó
Pra não parecer um bocó
Envergonhando tanto a mim
Era tudo mesmo assim
No sertão do Seridó.

E se não tivesse um sabugo
Ou outro higiênico objeto
Que se pudesse usar direto
Pra limpar aquele lugar
Certamente iria incomodar
Pois se ressecasse ao redor
A coisa ficaria muito pior
Judiava junto com o pixaim
Era tudo mesmo assim
No sertão do Seridó.

Mas tirando esses aperreios
A vida era muito boa
A molecada ria à toa
Quaisquer que fossem os motes
Pouca gente ou aos magotes
Em tudo uma alegria só
Que até parecesse brocoió
Viver era uma coisa afim
Era tudo mesmo assim
No sertão do Seridó.

Foi nesse lugar que cresci
Eu acho que foi minha sorte
Lições que seguirei até a morte
Foi no mato que eu aprendi
Ouvindo o canto do bem-te-vi
Da covardia nunca ter dó
Espiar o mundo ao redor
Praticar a bondade enfim
Era tudo mesmo assim
No sertão do Seridó.

Pra ficar no que foi lido
Vou parando este poema
Embora este meu tema
Ainda possa ser estendido
Longe tá de ser exaurido
Até faltou falar do socó
E do peçonhento procotó
Terrível inseto tupiniquim
Era tudo mesmo assim
No sertão do Seridó!

4 comentários:

Primo Poeta disse...

Parabéns meu Primo,
Você é um danado.

Anônimo disse...

Uma lembrança bonita
De um tempo que passou
Na vida deste poeta
Que na lembrança guardou
E como um filme retrata
O que na infância viveu
Conta tin-tin, por tin-tin
Com saudade que dá dó
Era tudo mesmo assim
No sertão do Seridó


Anônimo disse...

Parabéns meu amigo Carlos Fernandes. Você, como sempre, se superando na arte da poesia.

Abração do amigo
Aécio

Professor Carlão disse...

Obrigado amigo Aécio. Lendo essa opinião vinda de você, eu me sinto consagrado!