sexta-feira, 6 de julho de 2012

Momento lírico 43



TESTEMUNHO SERTANEJO
(Karl Fern)

Não há tristeza no mundo
Comparada à do sertanejo
Quando cheio de desejo
Não ver uma chuva no céu
Sente-se sozinho ao léu
Sem trovão nem relampejo

Nem um ventinho benfazejo
Sopra pro lado contrário
E vai passando o calendário
Consumindo-lhe a esperança
A sequidão em tudo avança
Restando a fé no seu rosário.

Sente-se mais pobre e solitário
Desprezado pelo destino
E na crueza do sol a pino
Recolhe-se em parca autoestima
Conforma-se em sua lenta sina
Que conhece desde menino.

Nem um filete d’água pequenino
O  arenoso rio continua mudo
Tudo em volta parece sisudo
Não há pastos nem vazante
Que aplaque o seu semblante
Envelhecido e carrancudo.

E neste sofrimento agudo
Só não perde o seu fervor
Crê que é coisa do Senhor
Dono do céu e daqui do chão
O Divino lhe toca o coração
São as agruras do pecador!

Assim ele suporta sua dor
E espera para o próximo ano
Quem sabe Deus tem um plano
De mandar chuva a vontade
E endoidecê-lo de felicidade
Dando vida ao seu cotidiano!

Neste mister não me engano
Assim é a mãe natureza
Que em sua perfeita nobreza
Nos faz entender todo dia
Que para se valorizar a alegria
Precisa-se conhecer a tristeza!


2 comentários:

Anônimo disse...

Pôxa que linda fiquei arrepiada! Li pra uma pessoa que tem parentes sofrendo a seca, e ela foi as lágrimas emocionada! Assim é o verdadeiro poeta... FAZ RIR E FAZ CHORAR!

Parabéns!

Lucena Fernandes disse...

É muito difícil a vida do sertanejo. É admirável a fé a esperança e a resignação que acompanham essa brava gente!